Conjunto de favelas da Maré sofreu 33 operações só em 2016, com saldo de 17 mortes

Estudantes passam por caminhão da PM na Maré - Marcelo Piu (Arquivo O Globo) / Agência O Globo

RIO – A Operação policial que deixou cinco pessoas feridas e mais de seis mil alunos sem aulas no Complexo da Maré, nesta quinta-feira, já faz parte de uma rotina de violência que ronda a vida dos moradores daquela região. Em 2016, foram contabilizadas outras 33 operações policiais, numa média de um tiroteio a cada 11 dias, que deixaram um rastro de 17 mortes em decorrência de intervenção policial. Os dados fazem parte de projeto criado pela Redes da Maré para estudar o impacto da letalidade policial nas 15 comunidades que formam o conjunto da Maré. Segundo a coordenadora da Redes, Eliana Sousa Silva, o “Projeto de Acompanhamento Permanente das violações decorrentes da ação das forças de Segurança Pública na Maré” tem por objetivo é chamar a atenção para a crescente violência que caracteriza parte do cotidiano das favelas da Maré:

— A ideia básica da organização dessas informações é a desnaturalização desses confrontos já que são muitas vidas perdidas Não podemos naturalizar como inegrantes dessa realidade, Temos de nos indignar e buscar caminhos coletivos de enfrentamento desse ciclo que coloca os moradores de favelas numa condição de inferioridade em relação ao direito à vida e à segurança pública. — defende Eliana.

Os dados foram coletados pela equipe do Eixo de Segurança Pública da Redes da Maré, compilados a partir do acompanhamento de todas as operações policiais ocorridas em 2016. Foram considerados, também, relatos de moradores que procuraram orientação jurídica sobre violações de direitos, serviço oferecido pela Redes da Maré. Além disso, foram consideradas matérias veiculadas na imprensa acerca dessas operações, bem como as comunicações oficiais da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SESEG).

Policiais militares durante patrulhamento na Maré – Marcos Tristão (Arquivo O Globo) / Agência O Globo

Ainda de acordo com o levantamento, em 2016 as operações policiais paralisaram os serviços públicos por 20 dias.

Segundo os dadas, em média, a cada 21 dias, morre uma pessoa por intervenção policial na Maré, sendo que a cada duas operações policiais na Maré, morre uma pessoa.

— Nāo é mais possível aceitar que não haja uma indignação da sociedade sobre o número de homicídios no Brasil, quase 60 mil ano, e do no Rio de Janeiro quase 5 000. A taxa de letalidade policial na Maré em 2016 foi oito vezes maior do que a do Brasil e três vezes maior do que a do estado do Rio de Janeiro em 2015. Enquanto no brasila 1,6 mortos por cem mil habitantes, na Maré foi de 12,8 por cem mil — explicou a pesquisadora.

A letalidade policial foi responsável em 2016 por 920 mortes, um aumento de 42,63% dos casos. Para a socióloga Julita Lemgruber, a política da Secretaria de Segurança de guerra ao tráfico de drogas:

Estando na guerra as drogas, a tendência é que a situação piore. Porque a polícia está matando, 2,5 pessoas por dia. É insuportável. O governo precisa rever esta política. O Roberto Sá agudizou o problema, porque houve algum momento em que o Beltrame tinha alguma dúvida sobre guerra às drogas, mas o Roberto Sá aposta na guerra as drogas. A política do novo secretário agudizou esta lógica — defendeu Julita.

O estudo revelou ainda que em 2016 os alunos da Maré ficaram 20 dias sem aulas em razão de tiroteios.

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