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PREFÁCIO
Ignacio Cano
O que o leitor tem nas suas mãos é um trabalho extremamente inovador. A primeira grande contribuição dos autores consiste justamente no tema escolhido. Um tema de raivosa urgência e atualidade e, ao mesmo tempo, incrivelmente sumido no descaso e, em última instância, na invisibilidade.
O Rio de Janeiro é o palco em que a beleza e a crueldade revezam suas gramáticas contraditórias para recriar um mito de cidade ao mesmo tempo sonhado e temido. Em poucos lugares do mundo a questão das vítimas indiretas da violência poderia ter maior interesse. Eivada por altas taxas de acidentes e, principalmente, por dramáticas taxas de homicídios, a região metropolitana do Rio de Janeiro pode ser considerada, tristemente, uma enorme usina de trauma e dor associados às mortes violentas. Fenômenos tão brutais como o desaparecimento forçado de pessoas, tradicionalmente associado às ditaduras latino-americanas de décadas passadas, podem ser encontrados hoje no Rio de Janeiro. Mães que receberam a notícia de que seus filhos teriam sido assassinados, mas que nunca viram o corpo nem ouviram um relato concreto do que se passou. Um prato ocioso a mais na mesa, na hora do jantar, esperando a volta improvável do filho que sumiu. Um oceano de dor pelo desenlace presumido e umas gotas de esperança para acreditar numa história inacreditável que explique por que ele, se ainda vivo, não fez mais contato.
Julgando pela incidência e pela intensidade da violência, o Rio de Janeiro deveria ser a sede de conferências e centros internacionais dedicados ao trauma provocado pela violência, um centro mundial de estudo e atenção a um assunto que a cidade, infelizmente, conhece tão bem. Não é isso o que acontece. Numerosas pesquisas avaliam a incidência da violência e diversos estudiosos exploraram suas causas e suas possíveis soluções. Alguns se debruçaram, ainda, sobre o impacto demográfico ou econômico da violência. Mas o impacto sobre o entorno pessoal da vítima fatal é praticamente esquecido — para além dos consultórios médicos, psicológicos e psiquiátricos— como objeto de pesquisa, de atenção social e de política pública. Mal conseguimos atentar para os mortos que se multiplicam no nosso solo. Quanto aos sobreviventes, que também morrem um pouco junto à pessoa que enterraram, os condenamos a um longo sofrimento, silencioso e solitário. E que dêem graças a Deus por estarem vivos.
O problema é ainda mais grave porque as mortes violentas, particularmente os homicídios, não se distribuem aleatoriamente na população. Escolhem suas vítimas preferentemente em segmentos muito específicos: jovens de sexo masculino, muitos deles negros, pobres e com baixa escolaridade, moradores das nossas cruéis periferias urbanas. Essa concentração faz com que muitas pessoas devam conviver quotidianamente com a violência e, não raro, sofram a perda violenta não de uma, mas de várias pessoas queridas. Os seres humanos se adaptam, como não poderia ser de outra forma, à realidade em que vivem. Não é difícil encontrar crianças que brincam na rua à vista dos cadáveres da madrugada anterior. Mas é uma adaptação sempre imperfeita e inevitavelmente traumática para o próprio indivíduo e para a sociedade como um todo. Como dizia Ignacio Martín-Baró, psicólogo social centro-americano, ele próprio vítima da violência homicida que assolava El Salvador, o estranho seria se pessoas normais reagissem de forma também normal a um entorno tão patológico. O convite para naturalizar o “in-naturalizável” é notoriamente indigesto e o preço da naturalização, astronômico, para o indivíduo e para a sociedade que o alberga.
Este livro é um grito nas nossas consciências para cessarmos de fingir que o silêncio ensurdecedor dos sobreviventes da violência não existe. O relato da pesquisa mostra um quadro desolador. Muitas vítimas indiretas se recusam a falar sobre a morte acontecida, na vã esperança de que tentar evitar a lembrança fará a dor desaparecer. Menos de 5% delas procuram ajuda psicológica e um número menor ainda toma remédios para aliviar os sintomas. Quase não existem grupos de auto-ajuda e as vítimas mergulham no isolamento. Um quarto das pessoas, ao menos, reza, procurando no além o sentido que lhes é negado na nossa realidade.
Como caberia esperar, o trauma associado aos casos de homicídio é aparentemente superior ao das mortes acidentais, pois naqueles, além da tragédia e da perda, é mais difícil encontrar um sentido e identificar a “vontade de Deus” com a da mão homicida. Mortes por homicídio são, quase que por definição, mortes evitáveis, mortes que não deveriam ter acontecido e que, por isso, desafiam o raciocínio e o espírito. Nelas, por outro lado, é preciso lidar com as questões da culpa e da punição.
Assim, além do trauma associado com a perda violenta de um ser querido em qualquer lugar do mundo, a situação no Rio apresenta singularidades particularmente perversas, como a impunidade e, às vezes, a obrigada convivência com os assassinos. A impossibilidade de se obter justiça pelo homicídio deixa as vítimas indiretas num abismo de vulnerabilidade, tanto num sentido físico quanto psicológico. Freqüentemente, a tentativa de processar os culpados pode ter como primeira conseqüência uma nova agressão, talvez fatal, contra os sobreviventes. Dessa forma, num cenário de falência generalizada dos mecanismos sociais e jurídicos de produção de justiça, é comum que o entorno da vítima, e não o algoz, acabe pagando o preço pelo crime. As famílias das vítimas das ditaduras conhecem muito bem esse quadro. Freqüentemente, o crime fica impune não por que se ignore a identidade do assassino, mas porque não há nada a ser feito para transformar esse conhecimento numa punição legal. E esse conhecimento torna-se uma violência quotidiana para quem precisa conviver de perto não apenas com a impunidade, mas com os próprios homicidas. O resultado de uma pressão tão atroz costuma ser ou a vingança ou a total anulação da vítima — que pode ser definida com o termo psicológico de ‘indefensão aprendida’ (learned helplessness)— e, por extensão, da sociedade como um todo.
O estudo levanta ainda questões novas e interessantes como o estresse induzido pelas próprias instituições do Estado, cuja missão deveria ser proteger as vítimas, e a influência do reconhecimento do cadáver do ser querido no trauma subseqüente.
Do ponto de vista metodológico, a pesquisa é de uma ousadia sem limite, pela coragem de abordar questões tão delicadas e informações institucionais normalmente sigilosas e de acesso restrito. Não se trata da típica pesquisa em que o entrevistador pode ser treinado numa sessão de um dia. É preciso experiência, cuidado e sensibilidade para poder coletar os dados necessários, sem aprofundar desnecessariamente a dor daqueles que já sofreram tanto. Tão somente a entrevista com vítimas diretas de violência ou tortura pode ser considerada mais difícil.
Os autores optaram por enfocar o tema desde uma perspectiva multidisciplinar, sempre bem-vinda, através de um longo percurso que transita pela psiquiatria, a psicologia, a sociologia, a saúde pública, a antropologia e a ciência política. A ousadia continua ao lançarem mão tanto de técnicas quantitativas quanto qualitativas, algo pouco freqüente em nosso meio. Por último, o estudo procura preencher o vazio acadêmico brasileiro com pesquisas do exterior sem, no entanto, aceitar acriticamente o que vem de fora nem pretender uma aplicação imediata ao contexto local.
O poder público deveria tomar este estudo como um ponto de partida para a reflexão sobre a necessidade de formularmos políticas públicas de proteção das vítimas indiretas da violência. A despeito de alguns projetos de lei em andamento e de alguns casos pontuais em que o estado reconhece a responsabilidade dos seus próprios agentes, o abandono dos familiares das vítimas fatais é quase total. Desde os gastos para o pagamento do enterro, até a atenção psicológica eficiente e gratuita, passando pela facilitação dos penosos e inevitáveis trâmites burocráticos associados à morte, é muito o que o Estado pode fazer, com um custo relativamente pequeno, por aqueles que tiveram uma tragédia próxima.
É claro que alguns elementos são comuns a famílias que perderam um membro por qualquer motivo, incluindo causas naturais, como o apoio econômico e social para que os órfãos possam continuar sua vida sem que o trauma se veja agravado por uma inviabilização do seu futuro. No entanto, algumas medidas deverão ser específicas para os casos de morte violenta.
Para os pesquisadores da área, o estudo é também um convite a explorar outros efeitos da violência além dos tradicionalmente contemplados. Por exemplo, a estudar os efeitos perversos da violência não apenas sobre os indivíduos, mas também sobre as relações sociais e a sociabilidade.
De qualquer forma, esse não é um estudo de interesse apenas para alguns coletivos que, por vocação ou obrigação, estão relacionados ao tema, mas para os cidadãos em geral. Numa sociedade como a nossa, todos nós somos, de alguma forma, sobreviventes da violência.
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