Margareth: sonho de ser policial interrompido em operação da própria polícia

Margareth e o companheiro haviam acabado de se mudar da casa da sogra para um espaço só deles e do filho, Enzo | Foto: Arquivo pessoal

Jovem, morta com dez tiros, é uma das seis vítimas de ações da polícia do Rio de Janeiro em apenas 80 horas

Margareth Teixeira da Costa, 17 anos, tinha um sonho: ser policial militar. Moradora da comunidade do 48, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, ela estava indo para igreja por volta das 19h do dia 13 de agosto. Tinha em seu colo o filho Enzo Teixeira Coutinho, de apenas um ano e dez meses, quando foi baleada dez vezes. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu, sendo mais uma vítima em operações policiais feitas pelo governo de Wilson Witzel (PSC). Seis pessoas morreram no intervalo de apenas 80 horas entre os dias 9/8 e 14/8.

Na noite do dia 13 de agosto acontecia uma operação da PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro) na favela do 48, para onde a jovem se mudou com o marido, Daniel Martins, quando engravidou do filho há pouco mais de dois anos. Ninguém sabe dizer de onde partiram os tiros, se da PM ou do crime organizado. Segundo a versão oficial, os policiais atuavam para interromper um “confronto entre facções locais” que acontecia no local.

O marido de Margareth, Daniel Martins, ainda tem dificuldade para falar sobre o assunto. “Sinto saudade dela, não acredito que isso aconteceu. No dia em que ela foi pra igreja, ela estava vestindo a calça que dei para ela, com um tênis rosa”, relembra à Ponte o companheiro, que pediu para encerrar a entrevista. “Não estou bem, estou levando”, finalizou.

Casal estava junto há três anos | Foto: Arquivo pessoal

Sem saber o autor do homicídio, fato é que Margareth recebeu dez tiros e morreu durante uma operação policial promovida pelo governo Witzel. “Ela foi socorrida pela viatura da polícia, mas chegou ao hospital Albert Schweitzer sem vida. Eu fui a primeira a saber pelo Jornal da Record e entrei em choque. Tive a dura missão de comunicar meus familiares, principalmente minha mãe que não é boa de saúde”, disse à Ponte a irmã de Margareth, Mirelle Teixeira da Costa.

Com 14 anos, Margareth casou com Daniel e apenas um ano depois ela engravidou de Enzo. Os dois tinham acabado de deixar a casa da mãe de Daniel e alugaram uma casa só para os dois, ainda na comunidade do 48. Tinham conseguido seu cantinho, onde ela estudava para passar em concurso e fazer parte da PM. “Lembro que comentava o tempo todo que ia realizar esse sonho um dia. Ela pediu para minha mãe inscrevê-la no curso”, explicou Mirelle.

A rotina da jovem envolvia três coisas: ir à igreja, cuidar da casa e do filho, além de estudar para o curso. Às vezes ela saía com o marido e o filho para lanchar perto da casa nova. Margareth era caçula da família de nove irmãos, todos criados em Duque de Caxias, cidade na Baixada Fluminense. A mudança para Bangu ocorreu para ela e o marido viverem na casa de sua sogra e, depois, conseguirem um espaço só para eles.

Ela retornava à Baixada quando o casal se desentendia, mas era questão de tempo para voltar. “Mês passado, por exemplo, eles discutiram de novo e ela foi pra Caxias, ficar com a minha mãe. Passou três semanas por lá. Quando ela morreu, tinha menos de uma semana que tinha voltado para o 48”, relembra Mirelle.

Jovem exibia em suas redes o dia a dia desde a gravidez até o nascimento do filho | Foto: Arquivo pessoal

O corpo de Margareth foi sepultado no cemitério do Caju, zona norte do Rio de Janeiro, no dia 16 de agosto. “Desculpa, estou meio dopada. Me tacaram calmante, mas eu estou conseguindo falar por áudio. Tive que me medicar porque sou hipertensa, cardíaca, e é um momento difícil pra mim. Eu quero que contem mesmo a história dela, que saibam quem era minha irmã. Ela não merecia isso”, confessou a irmã à Ponte.

O pequeno Enzo passou por duas cirurgias e ainda não há atualizações sobre seu estado de saúde. Em seu primeiro ano de vida, o pequeno perdeu parte do calcanhar justamente por causa de um tiro no pé.

Questionada pela Ponte, a Polícia Militar informou que a operação foi realizada no 48 para coibir confrontos armados entre grupos rivais na comunidade. “Com aproximação dos policiais houve intensa reação armada de criminosos”, disse parte da nota da corporação, que nem sequer citou a morte de Margareth em seu posicionamento oficial.

Margareth foi a quarta jovem que morreu baleada em cinco dias no Rio de Janeiro, de sexta (9/8) até quarta-feira (14/8). No total, as operações deixaram seis mortos. As outras vítimas são Gabriel Pereira Alves, 18 anos; Lucas Monteiro Santos da Costa, 21 anos; Tiago Freitas, 21 anos; Dyogo Costa Xavier de Brito, 16 anos; e Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, 19 anos.

Gabriel estava em um ponto de ônibus na Tijuca, zona norte, no dia 9/8; Lucas, soldado da Brigada de Infantaria Paraquedista, e Tiago morreram após uma festa no Encantado, também na zona norte; na segunda-feira (12/8), Henrico, que trabalhava em um supermercado, morreu na Comunidade Terra Nova, em Magé, na Região Metropolitana do Rio, mesmo dia em que Dyogo, jogador de futebol das categorias de base do América, morreu em Niterói. Todos foram baleados durante operações policiais.

Estado lamenta ‘mortes que possam ocorrer’

Um levantamento feito pela Rede de Observatórios da Segurança aponta que o governo de Wilson Witzel acumula uma média de seis operações policiais e pelo menos uma pessoa morta por dia no primeiro semestre de 2019. Foram 1.148 operações de janeiro a junho, com 731 mortes.

Jovem publicava fotos orgulhosa da maternidade recente | Foto: Arquivo pessoal

Cartas feitas por crianças do Complexo da Maré ajudaram a sensibilizar a Justiça, que retomou na semana passada a ACP (Ação Civil Pública) da Maré, que determinava regras para operações policiais nas 16 favelas que formam a Maré. Em meses sem a ACP, a área recebeu mais operações e registrou mais mortos do que em todo o ano de 2018. Uma das cartas feitas pelas crianças tem o desenho de um helicóptero atirando na direção dos moradores, um exemplo dos helicópteros com plataforma de tiro introduzidos por Witzel e apelidados de “caveirões aéreos” pelos moradores – uma alusão aos blindados usados em terra.

Na última sexta-feira (16/8), após a morte dos jovens, o governador Witzel disse que o “cadáver não está no colo dele, mas sim no dos pseudodefendores dos direitos humanos”. “Quando eu digo que quem está de fuzil na mão deve ser abatido, levantam-se vários defensores dos direitos humanos. Quando eles matam inocentes, dizem que foi a polícia que matou. Mas, quando digo que tem que abater quem está de fuzil, eles são contra”, disparou o governador.

Secretário de governo do estado, Cleiton Rodrigues seguiu a lógica de Witzel e defendeu a política de segurança do estado. Em sua fala, ele lamentou ainda “a possibilidade de futuras mortes”. “O governador e o governo do estado lamentam profundamente todas essas mortes. Essas e todas as outras que possam acontecer. Nós estamos todos os dias trabalhando para que elas não aconteçam”, declarou, em entrevista à TV Globo.

Witzel tem ‘culpa moral’

Jacqueline Muniz, cientista social, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense) e criadora do ISP (Instituto de Segurança Pública), ligado ao governo do Rio de Janeiro, criticou a postura do governador Witzel. “Como um governador pode fingir não saber que ele é o comandante chefe das polícias estaduais, responsável pelas finalidades e resultados da atuação policial?”, questionou.

Para a especialista, escolhas do governador traçam o modelo de segurança pública local e, quando eleito, Witzel declarou que, em seu governo, a polícia miraria na cabecinha e atiraria. “Que fique bastante claro: compete ao governador autorizar determinados armamentos e alguns de seus modos de uso. Isso corresponde à sua proposta implícita ou explícita de segurança e direitos humanos e seguira sempre aberta ao questionamento público”, diz.


Jacqueline ainda condena o fato do governador lavar suas mãos para o sangue derramado nas comunidades cariocas. “As mortes estão, sim, na sua conta, governador. Esta fatura trágica é sua e não há como empurrar os corpos dos jovens mortos para longe do Palácio da Guanabara [sede do governo local]. Eles permanecerão eternamente aqui, em nossa memória, e lá, dentro de sua consciência, mantendo vivas a sua culpa moral, sua indigência legal e sua irresponsabilidade política”, critica.

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