Jovens negros são os que mais apontam problemas em UPPs, diz pesquisa

Morador é revistado durante megaoperação no Jacarezinho - Pedro Teixeira / Agência O Globo

Dos entrevistados, 21% afirmaram ter sofrido alguma abordagem ou revista de policiais

Dos moradores entrevistados, 21% afirmaram ter sofrido alguma abordagem e revista corporal de policiais da UPP, sendo que 16% contaram ter sido revistados ou parados pela polícia mais de uma vez, nos últimos 12 meses.

Na visão dos pesquisadores, os números evidenciam o “caráter seletivo das abordagens”. Homens foram parados e revistados oito vezes mais do que as mulheres (42% contra 5%); e negros e pardos, quase duas vezes mais do que brancos (24% contra 14%).

— Os jovens e negros foram os mais prejudicados. Acostumados a serem revistados no restante da cidade, passaram a sofrer revistas constantes em suas comunidades. Pelo menos, 40% foram revistados mais de uma vez nos últimos 12 meses. O sentimento deles era de humilhação — diz a cientista política Silvia Ramos, uma das coordenadoras do estudo.

O blogueiro Rene Silva, fundador do jornal Voz da Comunidade, do Complexo do Alemão, nunca foi revistado, mas sabe que amigos e vizinhos da favela sofrem com as constantes abordagens.

— Nas favelas com UPP, quase diariamente, os jovens negros são revistados. Ontem mesmo estava lendo relato da MC Martina, que estava voltando com quatro amigos negros no carro e foi parada na Linha Amarela, quando voltava para casa. A polícia queria saber de onde eles estavam vindo e para onde estavam indo. Nunca fui revistado. Acredito que é porque só ando na comunidade de camiseta e com crachá do Voz da Comunidade — diz ele, acrescentando que percebe uma “onda” de desânimo na favela — Acho que hoje a maioria das pessoas não acredita mais nas UPPs como acreditava no início. Depois de tudo o que aconteceu, muita gente não acredita mais no projeto. Os problemas pioram cada vez mais. É uma situação muito triste.

Morador de Curicica, Cláudio Santos, o MC 4-Ó, de 18 anos, faz shows e participa de batalhas de poesias em várias comunidades, principalmente na Cidade de Deus e no Alemão. Ele conta que também nunca foi revistado, mas conhece vários amigos que já foram abordados:

— Eles têm o padrão (diz isso fazendo o gesto de quem coloca aspas no ar) que os policiais entendem como suspeito. Eles são negros. Isso precisa ser mudado — defende o artista, que demonstra seu desagrado em forma de poesia e música.

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